Recensões

Decerto, quando falamos das Revistas da "Renascença Portuguesa", temos que referir, de imediato "A Águia" (a partir da sua segunda série) e "A Vida Portuguesa".

 

Fundada por Álvaro Pinto, tendo saído o seu primeiro número a 1 de Dezembro de 1910. O seu nome, presumivelmente, deve-se ao poema épico A Morte da Águia, de Jaime Cortesão, primeira obra poética publicada. Logo no seu segundo número, levanta-se a questão “A Arte é social?”. Raul Proença responde que sim, enfatizando mesmo que ela é “essencialmente social, na sua origem, na sua natureza e nos seus efeitos”.

Propriedade da Renascença Portuguesa e dirigida por Jaime Cortesão, começou a publicar-se a 31 de Outubro de 1912 (estendendo-se até Novembro de 1915), na sequência de uma série de conferências proferidas por Cortesão, Pascoaes e Fidelino de Figueiredo. Uma preocupação acabou por se sobrepor a todas as outras: a participação de Portugal na Grande Guerra, que teve em Cortesão um dos seus mais apaixonados defensores. Para além disso, foi dando destaque a algumas iniciativas da Renascença Portuguesa, como, em particular, a das Universidades Populares (que funcionaram no Porto, Coimbra, Vila Real e Póvoa de Varzim) e a do seu Plano de Edições, estruturada em quatro Bibliotecas:

- a “Biblioteca Lusitana”, dirigida por Jaime Cortesão e Alfredo Coelho de Magalhães.

- a “Biblioteca da Educação”, dirigida por António Sérgio.

- a “Biblioteca Infantil e Popular”, dirigida por Teixeira Rego

- a “Biblioteca Histórica”.

 

Mas, ao mesmo tempo, importa ter em conta outras revistas - quer anteriores, quer coetâneas, quer posteriores.

Quanto às anteriores, referimos apenas, para não sermos muito exaustivos, duas: 

Nova Silva - lançada em Fevereiro de 1907 e dirigida por Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão, Álvaro Pinto e Cláudio Basto, foi uma Revista de tendência libertária, divulgadora dos princípios da "Escola Livre" - a sua divisa era, precisamente:

LIBERTAS

Sem servilismos de programas, de escolas, de dogmas – absolutamente livres de preconceitos – obedeceremos tão somente aos impulsos de razão incoercível e indomada.

Libertas!

Nas lutas das paixões, que convulsionam a Humanidade, será essa palavra fecunda o estímulo da nossa actividade, a directriz do nosso esforço.

Libertas!

Sim, liberdade e com ela o supremo Bem, a suprema justiça

Com colaboração artística de Jaime Cortesão, Virgílio Ferreira, José de Meira e Cristiano de Carvalho (que viria depois a desenhar a primeira capa de A Águia).

Ilustração Popular: Semanário de vulgarização artística, literária e científica - lançada em Novembro de 1908 e dirigida por Carlos Magalhães, nela participam muitos dos futuros colaboradores da Renascença Portuguesa: Jaime Cortesão publicou o trecho “Canto das Águias” do poema épico A Morte da Águia (1910); Leonardo Coimbra escreveu sobre Teixeira de Pascoaes; Álvaro Pinto assegurou a secção de “Teatro”; o próprio Pascoaes também colaborou com duas poesias: “À M.E.C.” e “Vénus”. Com colaboração artística de Cristiano de Carvalho, Virgílio Ferreira, Jaime Cortesão, António Carneiro, João Augusto Ribeiro e Amadeo de Souza-Cardoso.

 

Já na década em que "A Águia" iniciou o seu voo, muitas mais revistas há a referir - nomeadamente:

Fundada por Ângelo Jorge em Agosto de 1911, foi uma revista de tendência simultaneamente espiritualista e anarquista , em que colaboraram alguns dos nomes maiores da Renascença Portuguesa: Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão e Teixeira de Pascoaes (sublinhe-se também a colaboração de Sampaio Bruno). No plano artístico, destaquem-se os nomes de Cristiano de Carvalho e António Carneiro, bem como a presença de alguns “modernistas”: Diogo de Macedo, Balha e Melo, Mário Pacheco, Joaquim Salgado e o escultor António de Azevedo.

De Coimbra, lançada em 1912, contou com a colaboração de poetas saudosistas: Afonso Duarte, Mário Beirão, Jaime Cortesão, Augusto Casimiro, Joaquim de Almeara, bem como Correia Dias, Virgílio Correia, Veiga Simões, Joaquim Manso e Nuno Simões.

Também lançada em 1912. Dirigida por Aarão de Lacerda, foi uma revista com algum pendor germanófilo, que assinalou, por particular destaquer, o Centenário de Richard Wagner.

Lançada em 1914, teve apenas 2 números. Saliente-se também nela a colaboração de Pascoaes e de outros poetas saudosistas.

Revista de Coimbra, lançada também em 1914, n' A Galera colaboraram diversos autores, como Fernando Pessoa, que, num número comemorativo de António Nobre, publicou Para a memória de António Nobre.

 

Fundada pelo poeta Carlos Morais em 1916, teve igualmente ampla colaboração de poetas saudosistas. Destaque-se, num dos seus dois números, uma análise do manuscrito Os Simples, de Guerra Junqueiro, pelo Visconde de Vila-Moura.

Revista fundada em Coimbra, em 1919, nela colaboram figuras como Eugénio de Castro, Teixeira de Pascoaes e António de Portucale (António de Sousa). Na perspectiva de Fernando Guimarães, foi uma das revistas que preparou a emergência da Presença.

Por fim, refira-se a "Atlântida: Mensário artístico, literário e social para Portugal e Brasil", que saiu entre 1915 e 1920. Não sendo uma revista da "Renascença Portuguesa", nela colaboraram diversos autores desta. Centrou-se no tema do estreitamento das relações luso-brasileiras, promovendo o conhecimento comum da arte e cultura e procurando facilitar os contactos e o intercâmbio cultural e pedagógico - a esse respeito, recorde-se a presença no Brasil de António Sérgio e de Álvaro Pinto e o facto de A Águia também ter sido impressa por estes anos (1920-1921) no Brasil. Do ponto de vista político-diplomático, chegam a propor uma federação luso-brasileira. De assinalar ainda os artigos de temática pedagógica. Conta com colaborações tão diversas como a de António Sérgio, Lúcio dos Santos, Hipólito Raposo, Jaime Cortesão, Jaime de Magalhães Lima, Teixeira de Pascoaes (com o "Londres") e João de Barros. Tendo uma poderosa componente cultural e artística (sendo que a intervenção política é em grande parte devida à participação portuguesa na I Guerra Mundial), a revista levanta a questão metodológica de se ter de extrair da sua participação artística (gráfica, pictórica ou literária) uma estética subjacente e aferir da sua maior ou menor unidade, ou atentar – em segundo grau – aos exercícios de crónica e crítica de arte para estabelecer qual o ponto de vista estético de que se parte em acto para a compreensão e análise da arte que se faz e que se escolhe como objecto de crítica. O registo ensaístico (ainda que de alcance mais amplo que o meramente estético, em registo tantas vezes ideológico, impressivo ou de crítica cultural levanta ainda outras questões metodológicas e epistemológicas, como a busca neles de um mesmo conceito de belo ou de Arte, a procura de afirmações relativas à função ou sentido da Arte, à sua relação com a sociedade, com a filosofia e com a religião, em geral.

A esse respeito, refiram-se ainda algumas Revistas integralistas e próximas ao movimento:

Alma Portugueza: Revista de philosophia litteratura e arte, sociologia, educação, instrucção e actualidades. [Dir. Domingos de Araújo, Dir. Artístico Ramos Ribeiro, Secretário da Redacção Rollão Preto] (Louvain): Typographia Vlaamsche Drukkerij, 1913.

Nação Portuguesa, revista de cultura nacionalista. Lisboa, 1914.

http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/bdigital/0-45LMR/2/0-45LMR_item2/index.html   

Ideia Nacional, revista política bi-semanal. Aveiro, 1915. [Dir. Homem Cristo Filho] http://purl.pt/22654/2/

Tradição, bimensário integralista, político, literário e artistico. Lisboa: 1917 [dir. Cordeiro Ribeiro]

Integralismo Lusitano. Estudos Portugueses. Lisboa, 1932. [Dirs. Luís de Almeida Braga e Hipólito Raposo]

 

É curioso verificar que a revista em que aparece pela primeira vez a expressão "Integralismo Lusitano" visando identifica uma nova corrente ideológica, pretendia ser mais uma revista de pensamento literário que político, editada na Bélgica por jovens exilados, dinamizados por Rollão Preto. Entre 1910/12 (A Águia) e 1915 (Orpheu) surge em 1914 a revista Nação Portuguesa, aglutinando as perspectivas reactivas de uma mocidade que reivindicava  uma doutrina anti-democrática. Dirigida sucessivamente por Alberto de Monsaraz, António Sardinha e Manuel Múrias, é o órgão do movimento. Entre os habituais colaboradores do movimento, note-se curioso artigo de Castelo Branco Chaves sobre António Nobre, criticando-o na mesma linha em que Júlio de Matos criticará em 1912, nas páginas d'A República, Pascoaes como corifeus de um nacionalismo mal perspectivado, demasiado confuso e sentimental, que resume boa parte da crítica que os integralistas farão aos saudosistas. Mas o principal motivo de desentendimento opõe o tradicionalismo católico ao anti-romanismo dos renascentistas. Já Tradição, de 1917, Mostra certas trajectórias híbridas, em termos mais estéticos do que políticos, entre Saudosismo e Integralismo. Vejam-se sobretudo os casos de Afonso Lopes Vieira e Américo Durão. A mesma revista apresenta já pontes para a estética modernista com João Cabral do Nascimento. Tal como em outras revistas integralistas, há forte coerência em termos ideologicos e relativa pluralidade em termos estéticos.

 

 

 

Já na década de 20, refiram-se as seguintes Revistas:

Lançada em 1920, tendo tido Leonardo Coimbra como Presidente da Comissão de Redacção, Hernâni Cidade como seu Secretário e José Marinho como elemento da Redacção. Nela, José Régio (assinando como "Reis Pereira") publica as suas primeiras obras literárias.

Lançada em 1921, por alunos da Faculdade de Letras do Porto; a partir do 3º número, passa a chamar-se A Nossa Revista e tem como Director Honorário Leonardo Coimbra.

Revista coimbrã, que lançou apenas um único número (1921), propõs-se analisar o estado em que a literatura portuguesa se encontrava e promover a sua regeneração.

 

Lançada em 1923, nesta “revista mensal de arte, letras, ciências e crítica” colaboraram autores como Teixeira de Pascoaes, Augusto Casimiro e Afonso Lopes Vieira. Pretendia "mostrar que em Coimbra há revelações de inconstestável merecimento"

Revista também coimbrã, lançada em 1924, sob a direcção, entre outros, de Afonso Duarte, António de Sousa, Branquinho da Fonseca, João Gaspar Simões e Vitorino Nemésio. De algum modo antecipando o nascimento da revista Presença, em 1927, nela colaboram, entre outros, José Régio, Alberto de Serpa, Américo Durão, Aquilino Ribeiro, Branquinho da Fonseca, Diogo de Macedo, Raul Brandão ou Teixeira de Pascoaes. José Régio colaborou igualmente nesta revista - nomeadamente no 6º número, a respeito dos último livros de Raul Brandão.

De Coimbra, refira-se por fim a Revista Bisâncio. Fernando Guimarães, na sua obra A Poesia da Presença e o Aparecimento do Neo-Realismo defende que "é ainda muito pesada na Bizâncio a influência simbolista ou decadentista".

Lançada no Porto em 1929 e dirigida por Carlos Bastos, contou com a colaboração de alguns autores que então escreviam n’ A Águia, como Raul Brandão, Álvaro Ribeiro e Casais Monteiro.

 

Por fim, damos o devido destaque à "Seara Nova". Lançada no começo da década, em 1921, agregou muitas figuras da "Renascença Portuguesa" que consideravam que o ideário desta não se havia cumprido com o magistério de Teixeira de Pascoaes, em particular com a sua doutrinação "saudosista". Falamos, nomeadamente, de António Sérgio, Jaime Cortesão e Raul Proença. Este último, de resto, na sua resposta ao Inquérito Literário, de Boavida Portugal (Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1915), o havia já dito, de forma particularmente expressiva: "no fim de alguns numeros — muito poucos — o que veio a predominar na Aguia não foi o lado intelectual da Renascença, mas a sua falange emotiva, mística, amorosa de sonho e de misterio. Por culpa dos elementos do sul, a Poesia tinha tomado posse da Aguia, da primeira pagina até á ultima; por culpa dos elementos do sul, a Renascença Portuguesa falhara completamente na sua missão" (p.123).

 

 

 

Já na década de 30, destacamos apenas a Revista "Princípio":

Começou a publicar-se a 15 de Maio de 1930, ainda enquanto “edição e propriedade da Renascença Portuguesa”, e teve como Directores Álvaro Ribeiro, Casais Monteiro e Maia Pinto -publicaram-se quatro números, sendo o último de 25 de Julho de 1930.

Para além de Álvaro Ribeiro, destaque-se a colaboração de José Marinho:

- “Apresentação da Revista Princípio”, in Princípio, nº 1, 15 de Maio de 1930.

- “As duas tradições”, in Princípio, nº 1, 15 de Maio de 1930, p. 7.

- “Considerações sobre uma Apoteose”, in Princípio, nº 3, 25 de Junho de 1930, pp. 87-91.

Pela "Princípio" se fez a ponte com a Geração da "Filosofia Portuguesa", que se virá a afirmar nas décadas seguintes, aquela que, a nosso ver, mais continuidade deu, no século XX, ao legado da "Renascença Portuguesa".

 

Renato Epifânio, Rui Lopo e Duarte Braga

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